NO TEMPO ATEMPORAL DAS ERMIDAS

Banhei-me de Sol
Virei outro eu
Derramei dos olhos saudades azuis
de tempos antigos
por mim nunca vividos.
Percorri caminhos por mim ignorados.
Pisei pedras pisadas que contaram histórias de jogos de bola, de corridas , de risos e choros.
De doces acenos, ao virar da esquina das idas para a escola.
Roubei esta flor
Roubei as saudades que não foram minhas
Roubei um passado que é o meu presente

13 comentários:
O tempo perdido é uma miragem que se materializa em nos, em cada gesto e em cada sonho que se vive.
As Ermidas douradas de outrora são por vezes visitadas em doces encantos que duram eternidades. Há muitos caminhos a percorrer na nossa memória, que a cada breve reunião se transformam em tempos imortais e o presente desdobra-se em passados roubados e muitos oferecidos num presente contínuo. O querer ir mais alem e fazer durar a glória é que nos move cheios de vigor e esperança.
Belíssimo poema! Votos de Excelente 2006! :)
perdemos o que não vivemos, essa é a perda maior. e não nos pertence? pertence, sim, ficou acomodada no recanto em que não tivemos tempo ou oportunidade de ir vasculhar. ou não quisemos. mas são nossas.
flor de herbário juvenil, guardada entre as folhas dos livros, fragmento de saudade perfumada.
beijinhos, querida Helena.
Passeei por aqui. Gostei de aqui ver Saramago, dos girassóis, das palavras que escreves :)
O tempo perdido não é apenas uma miragem longínqua, faz parte da metáfora da vida, quando descoberta e revisitada, em Ermidas e outros Percursos e Templos de reencontro connosco mesmos.
Momentos espaciotemporais únicos, paradoxalmente fugazes e eternos.
Para ti, Francisco um sorriso e um obrigada pelas palavras e votos de um excelente 2006
Beijinho, Musália
Flor recentemente colhida e tratada, reveladora das saudades do não vivido, mas que o sonho do presente as transforma em eternas, chegando mesmo a conferir-lhes uma intensidade real.
Folhas, gostei de passear pelo teu jardim de estrelas e de mar.
Beijinho :)
Este seu belo poema levou-me a este outro, meu, mais antigo. É com enorme prazer q o partilho consigo :)
do templo restava apenas a memória
o ciclo difícil das pedras
amontoadas por gigantes pré-históricos
porque antes da história já havia história
porque antes das pedras já havia pedras
e antes das pedras e da história já havia sonhos
e antes dos sonhos já havia sonhos
sonhos de outros sonhos
e de outros tempos
e glórias
e já havia relógios e réguas
para medir tempos e passos
parafusos e milímetros
e deuses duvidosamente adivinhos
e já havia canetas e lápis
e tintas e compassos
para desenhar órbitas no espaço
e já havia sei lá mais o quê
para preencher os tempos gastos
a palmilhar universos infinitamente redondos
e baços
e já havia esta monótona monotonia
monocórdica dos abraços
que nos corrompem os disfarces
nos irrompem dos beiços
como quem diz qualquer coisa
só para entulhar os silêncios
de vazios plásticos
e já havia este amor eterno
que me pulsa no peito
um amor pré-biótico
que se serve à hora do chá
às 5 da matina
com biscoitos açúcar térmitas
pão com manteiga
e gelatina
Jorge Casimiro
Jorge, não sei como agradecer as suas visitas. Sobretudo, porque elas vêm sempre acompanhadas de um bonito presente, como de novo é o caso de hoje.
Fez-me recordar Blimunda e Baltazar, e os sonhos que só acontecem porque outros sonhos os precederam.
:)
Helena, o seu blogue é de uma imensa sensibilidade. Não admira, pois, q me conduza a responder-lhe com poesia. De q outra forma... :)
Gostava de saber mais de si. Dir-lhe-ei de mim, se quiser. (Não sei se por esta via tem acesso ao meu mail; se não, diga...)
E como os bons hábitos não devem perder-se,... mais um poema:
nas rotas do teu corpo
cumprem-se traços de gazela
escultura irreal
como irreal é a cidade que te habita
talhada a golpes de maço
com a delicadeza de quem esculpe libélulas transparências
arranha-céus frágeis que baloiçam firmes ao vento
soltos à nortada de um suspiro
um respirar nocturno
e nas montras iluminadas viajam formas fugidias
fadas e monstros
duendes em transe
poção de druida
velho mago inspirado
que lança palavras secretas
ao poço de um último poema
em gestos voláteis
de ternas alquimias
jorge casimiro (ternas alquimias)
Nem sei que dizer, Jorge. Grata (será a melhor forma) pela sua atenção e pelos presentes que me deixa.
Não nego a sensibilidade que me habita. Contudo, sou apenas uma artesã da palavra que um dia se lembrou de criar um blog, e aí deixar alguns escritos. Talvez os primeiros sejam mais reveladores de mim. Não sei...
Quem sabe se este lhe diz algo.
Fui menina da terra
Disse palavras de frutos e de flores
Bebi o néctar das azedas
Trinquei amoras
Colhi papoilas e mal- me- queres
Corri por todas as veredas
Subi a árvores
E perfumei-me de mil odores.
Nos olhos do meu avô
Conheci o céu e o mar
O céu que ele tanto olhou
O mar
Cujo caminho me ensinou.
Das palavras de cal
Não quero contar a história…
Quero apenas guardar
Da infância
A memória.
Fiz-me ao mar
Num voluntário exílio
Corri mil águas
Deixei na terra as minha mágoas
Corri mil céus
Fui das gaivotas companheira
Deixei na terra todo o mal
E hoje
Só sei
Só digo
Doces palavras de sal.
Na realidade, por esta via, o Jorge é o Jorge, não tenho acesso ao seu e-mail. Provavelmente, não terá um blog, e espanta-me que tivesse descoberto o Shoshana... Quer dizer-me como aconteceu?
:)
Helena,
Muito belo o seu poema. Obrigado :)
muito! Dele espero vir a falar-lhe mais...
Deixei-lhe um outro 'comentário' no seu Renascimento. Talvez não o tenha ainda visto.
Não tenho blogue, de facto. Penso que seria demasiado preguiçoso para cuidá-lo. rs Dei com o seu, como em tudo na vida, por acaso. Creio na força do acaso - sobretudo quando nós lhe damos uma 'mãozinha' ;)
O meu mail: jorge_casimiro@sapo.pt
Um abraço (desta vez sem poema)
jorge
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