Terça-feira, Janeiro 10, 2006

DÁ-ME


Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra
Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz
Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!
*
(Carlos Edmundo de Ory)
*
Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas...
explosaosolar
Dá-me um sol que nasça a Sul
Dá-me um Tempo
Que não se escoe
Como areia
Entre os dedos
Dá-me uma terra azul
Em que me banhe
Numa ilusão de Mar
Dá-me um céu estrelado
Onde me espelhe
enxamedeestrelas
*
Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
*
O que não dizes
Ocultando de mim
O teu desejo
Dá-me o teu secreto beijo
O sal do teu olhar
O sorriso sem som
Que não ousas soltar
Dá-me-te
*
E se nada tens para me dar
dá-me tudo o que te falta!
*
O que julgas não ter
Porque te cega
Pela força
Pela fusão rara
Inusitada
Jamais vivida
De um amor
Fervente
Qual lava de um vulcão
Sobre ti derramada.
m20030605-vulcao[1]

21 comentários:

Ulysses disse...

Um poema muito bonito e como todos os poemas cheio de sentidos e de direcções. Os olhos e a alma, bebem desse encanto e mergulham nas palavras como se fossem muito mais que a salvação, como se fossem a própria essência e todo o sentido da vida se concentra na direcção que a visão não vê mas a alma sente.
O curioso da partilha das palavras é cada um dar-lhe o sentido que interioriza como seu e o parto do autor toma vida e espelha-se um mil vivencias cada uma colhendo as palavras como suas e enchendo-as da sua subjectividade.
Gostava de entender mais os poemas e não ficar com a estranha sensação que são os poemas que me entendem a mim e que delicadamente eu finjo entende-los a eles.
No entanto, a imaginação não tem limites e mesmo não ficando imóvel, mesmo sem olhar, mesmo sem dar seja o que for, mesmo sem precisar, dá-se por vezes mais do que o que se deseja receber.

zezinho disse...

Antes de tudo, adoro visitar-te para celebrar a amizade. A nossa e à nossa!
Depois, parabéns pela música. Belissima.
Depois aina, celebro o poema.
O beijo minha querida amiga!

Egroj disse...

Tremendamente belo.
Talvez, mesmo , arrepiante.
Mas paradoxalmente doce.
Um beijo amigo.

Maria do Céu Costa disse...

Sobre o poema de Carlos Edmundo de Ory, poeta de raizes espanholas, resultou um bonito trabalho, gostei de ler. Beijinhos.

laerce disse...

Olá Helena,

Um diálogo um desejo um pedido.

Gosto muito da música.

Um beijinho

eduardo disse...

Bom dia, Nucha.

Todas as dádivas nos são gratas, mas da forma como as descreves por palavras tuas tornam-se melhores e ganham incentivo. O incentivo que nos fazem ser melhores a dar, a partilhar, a consentir que a amizade se revele em cores de azul.
Aquele azul que gosto tanto: o do Mar que nos afaga e nos embala-

Beijokas. Tem uma boa semana.

musalia disse...

no fundo pede-se tão pouco,não é amiga? o afecto, um sorriso ou a sombra ele. o calor que nos mantém desejando viver.
beijinhos, Helena.

Lumife disse...

Finalmente uma visita que já tardava. Vou colocar em dia a leitura.

helena disse...

Umm, "O Poeta é um fingidor...". Eu nem sequer poeta sou. Apenas escrevinho na folha branca e rasa, caracteres que a vão preenchendo de imagens, sentidos, metáforas...
e o poema nunca acaba e tem vidas novas, diversas da vida inicial. Deixa de ser de quem o escreve, para em liberdade pertencer a quem o lê.
Agradeço a dádiva da tua reflexão, com um :)*

helena disse...

À NOSSA, Zezinho.
Adoro Pink Floyd.O poema também ( o do Edmundo Ory, claro)que fez nascer em mim todos aqueles desejos e a vontade de os revelar.
Um beijinho amigo

helena disse...

Um beijo egroj.
O poema...palavras apenas, desejos, sentires.
O eterno paradoxo que é a vida.

helena disse...

Gostei de dialogar com o Edmundo, como estou a gostar de dialogar contigo agora, doce laerce.
Beijinho

helena disse...

CÉU,
vindas de ti, essas palavras emocionam-me .
Um beijinho

helena disse...

Eduardo, o universo é azul e de todas as cores quando celebramos um amigo, quando nos lembramos dele. Basta olhar ou imaginar o azul, e o amigo ali está.
Beijinho, meu amigo (mano)

helena disse...

O frio pode andar por aí a querer tolher-nos, mas um desejo tão simples, e os amigos, quebram o gelo que por vezes nos rodeia. Assim são as tuas palavras, minha amiga. Beijinho

helena disse...

Lumife, é mesmo assim. O tempo é pouco para tudo o que gostaríamos de fazer,:)
Obrigada pela visita.

jorge disse...

perdoa-me este vento no rosto
só por dizer o teu nome
esta forma imoderada de pousar-te no corpo
e íbis nidificar em teus seios
redondos e suaves como mundos imaginados

perdoa a riqueza deste amor
sem sedas nem brocados
a fragilidade deste mundo sem orientes
nem senhas nem tratados
e esta resma de escritos imperfeitos
em que invariavelmente falo de ti
mesmo quando não é de ti que falo
quando disfarço o teu nome sob a capa do mar
quando desfolho o teu corpo crisálida
em momentos só meus
e vejo emergir mariposas de toucados ancestrais
quando digo de a a z o que me vem escrito na alma
e grito que é vazio
só vazio
o alfabeto das coisas
que em teu nome não digo
e nego que tu existes
(que te sonho sequer)
perdoa tudo isto amor
porque homem e mulher que sejamos
somos só destinos anónimos
distantes
de chegada

e de partida

Jorge Casimiro

helena disse...

Grata, Jorge, pela sua visita e pelo belo poema que aqui me deixou.
:)

sarabenson71732971 disse...
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Fernão disse...

Dou-te tudo o que quiseres.:)

helena disse...

Obrigada Fernão amigo.
Já que ofereces, quero apenas as tuas Ilhas de Bruma...:)
Esse mar maravilhoso que tu contemplas todos os dias.
Beijinho