Quarta-feira, Abril 05, 2006

CHOVE




chuva[2]

Chove
Espalham-se pelo ar
Os murmúrios das gotas
Os seus gritos
Magoados quando tocam o chão

Caminho pelos campos
Desnuda
Sem cobertas que me prendam
Mas não me vergo ao tempo
Como os velhos
Nem às memórias há muito esquecidas
Não me vergo à solidão
Não me vergo ao vento
Que sopra palavras
Que não entendo
Vergo-me apenas ao seu peso

Envolvo-me na terra
Fundo-me com ela
Deixo-me abraçar
Como por um amante
E tudo se torna claro
Brilhante e leve.

Escuto o silêncio
Do aroma da terra molhada
Fecundada pela chuva que cai
Escuto o silêncio
Prenhe das cores de que a terra se cobre.

Ergo-me
Também eu prenhe de luz
Agora renascida
Purificada
Entendo
Os gritos
Os murmúrios
As palavras
Que se soltam de mim
As palavras
Agora leves
Que a terra me segredou.

E chove ainda.

6 comentários:

musalia disse...

belissimo o poema e a ária que o acompanha.
gosto do silêncio e da solidão, Helena. mas quando nos pesa não é positiva, não.

um abraço amigo.

musalia disse...

belissimo o poema e a ária que o acompanha.
gosto do silêncio e da solidão, Helena. mas quando nos pesa não é positiva, não.

um abraço amigo.

helena disse...

que curioso, musália/moriana, estarmos ambas a pensar uma na outra.
Comentámo-nos em simultâneo.
Penso que no meu poema se nota que "não me vergo ao peso da solidão", apenas ao peso das palavras, pois a solidão é para mim uma companheira.
Beijinho

Vic disse...

Querida amiga, é bom que no regresso tenha logo as tuas palavras para me dar o ânimo necessário a continuar :-)
E os teus poemas, bem....
Beijinho grande com saudades
do
Vic

Ulysses disse...

Como é bom saber que a magia continua, sempre alimentada pela esperança, encharcada das gotas da seiva da vida, que inundam as terras e alagam os montes e vales, escorrendo pelas florestas da vida, que nunca parecem saciadas de mais e mais vida que lhes cai como por magia dos céus, cheia de luz.
Jamais se vergará a persistência e a perseverança e a vontade de alcançar aquilo que é a matéria de que os sonhos são feitos.
Após a chuva, soltam-se os gritos lancinantes de vida atirada do cimo dos céus também. Vida com vida, cheia da avassaladora vontade, que usurpa e se demora espalhando os seus raios de vida.

Lord of Erewhon disse...

Não está mal... mas a forma não favorece a matéria do poema. Deverias trabalhar em frases poéticas mais longas e usar a pontuação com outra eficácia.