ROTAÇÕES
Em rotações brilham as estrelas
As estrelas não têm sombra e é nesse fulgor
que se ocultam. As palavras dizem-se a brilhar,
elas que se envolvem de penumbra
Em tempo de arrumações e mudança, redescobri o livro há muito guardado na prateleira.
Três poetas, que em afinidades raras e rara cumplicidade, dão vida a um livro...ROTAÇÕES.
António Ramos Rosa, sobejamente conhecido
Agripina Costa Marques, mulher (do) poeta numa revelação plena.
Carlos Poças Falcão, um jovem poeta amigo do casal.
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Quando as figuras nas suas formas de silêncio
oferecem os flancos materiais e tranquilos
dir-se-ia que na pupila se condensa
em lentas flexões o inesgotável fluxo
a que chamamos amor ou felicidade ou vida.
E é como se as mãos nascessem das nascentes
e as vértebras de argila o coração guardassem
no equilíbrio da terra em que a sombra se doura.
E o tranquilo timbre que num espelho se acende
de sombra em sombra o ouro reflectisse
até que lustral o pensamento culminasse
na cristalina transparência da alma absoluta.
(António Ramos Rosa)
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Serenidade do olhar__ apelo do mais fundo__
até à perfeita nitidez da percepção
Toda a agitação desordena a retina
torna difusas imagens em sobreposição
desfoca a sua intensidade singular.
E o equilíbrio só lentamente se refaz
por dentro do olhar: aí onde se tece a paz
o Lugar da harmonia e do repouso.
É quando vagarosa a atenção se dilata
e cada minúcia é uma dádiva de luz.
(Agripina Costa Marques)
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De um lugar imóvel e com olhar sereno
talvez alguém contemple as trémulas figuras
e nelas bata a luz de modo a parecerem
altas e seguras. E o tempobusque as formas
preciosas. E o próprio olhar, fechando os olhos,
as possa modelar, tomar-lhes as perfeitas
qualidades. E à voz então inesgotável
baste um som apenas, uma palavra tensa.
E nessa forma do silêncio, nessa espécie
de cegueira, cara aos deuses, a realidade
seja um clarão solar, a rosa que se oferece
ao amor mais simples, no gesto mais humilde.
(Carlos Poças Falcão)
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